Cérebro em Ação, de David Eagleman (Capítulo 8): a calma do cérebro é uma guerra empatada
No capítulo anterior o Eagleman mostrou que os territórios do córtex são disputados, e que o sonho existe porque o cérebro precisa defender o espaço da visão durante a noite. Agora ele faz uma pergunta que estava implícita o tempo todo: se existe uma disputa permanente acontecendo lá dentro, por que o mapa parece tão estável? Por que a gente tem a impressão de que o cérebro está parado? A resposta desse capítulo mudou a forma como eu enxergo o que é ficar parado em uma postura.

O alienígena que achou que nada estava acontecendo
O capítulo abre com uma imagem que eu achei perfeita. Imagine um alienígena que chega à Terra em outubro de 1962, bem no meio da crise dos mísseis de Cuba. Ele olha para baixo e não vê nada acontecendo. Os Estados Unidos parados, os soviéticos parados, os cubanos parados. Ele bocejaria e concluiria que está observando um sistema político lento, sem energia, fossilizado.
E estaria completamente errado. Nada estava acontecendo justamente porque tudo estava acontecendo ao mesmo tempo, em direções opostas, com força equivalente. As molas estavam todas retesadas, os mísseis apontados, os exércitos prontos. A quietude era o resultado de forças em oposição perfeita, não a ausência de força.
É exatamente assim com o cérebro. Os mapas parecem estáveis porque estão perfeitamente equilibrados nas suas contraforças. O Eagleman diz que não se deve deixar a calma enganar você: as redes neurais parecem assentadas só porque cada região está presa em uma guerra fria, retesada, pronta para disputar as próximas fronteiras.
Alice, que nasceu com metade do cérebro
Para mostrar como essas fronteiras se movem, ele conta o caso de uma menina que ele chama de Alice. Aos três anos e meio ela começou a ter pequenas convulsões, os pais a levaram para um exame de imagem, e o resultado surpreendeu a equipe médica: ela tinha nascido com apenas a metade esquerda do cérebro. A metade direita simplesmente não existia.
O surpreendente é que ela teve uma infância normal. Coordenação entre olho e mão, sem problema. As convulsões eram controladas por medicação. O único sinal externo era uma dificuldade com movimentos finos da mão esquerda.
O que aconteceu com a fiação dela é o ponto do capítulo. Normalmente metade da informação visual atravessa a linha média e vai para o hemisfério direito. Sem esse hemisfério, essas fibras poderiam simplesmente não ter para onde ir, e metade do mundo visual ficaria de fora. Não foi isso. Os dois campos visuais se instalaram no único hemisfério disponível. O mapa inteiro se comprimiu no espaço que restava, e as áreas vizinhas do cérebro não tiveram nenhuma dificuldade em usar esse mapa fora do padrão.
O mesmo princípio aparece em experimentos com sapos, que têm um sistema visual mais simples. Se você remove metade da área que recebe a informação do olho, o mapa inteiro se desenvolve comprimido na área menor. Se você transplanta um olho a mais em um girino, os dois olhos dividem o território em faixas alternadas. E se você reduz pela metade a quantidade de fibras que chegam, o mapa se estica e ocupa o território todo. O espaço disponível é sempre ocupado e sempre preenchido.
Como um neurônio ganha ou perde território
Mas quem decide isso? Ninguém decide. É aí que está a beleza do argumento.
No começo dos anos 1960, David Hubel e Torsten Wiesel mostraram que o córtex visual dos mamíferos é organizado em faixas alternadas, umas recebendo sinal do olho esquerdo, outras do direito. Em condições normais, cada olho controla metade do território. Mas se um dos olhos é fechado no início da vida, o olho que continua funcionando começa a tomar o espaço do outro. As entradas do olho forte são mantidas e reforçadas, as do olho fechado enfraquecem e definham. O trabalho rendeu a eles o Nobel em 1981.
A conclusão prática é enorme: manter território no cérebro depende de atividade. Preservar o seu espaço exige vigor constante. Quando o sinal diminui, os neurônios trocam de conexão até encontrar onde a ação está.
É por isso que uma criança com os olhos desalinhados acaba perdendo a visão do olho menos usado, e o problema não está no olho, está no córtex. E é por isso que o tratamento funciona: você alinha o olho fraco cirurgicamente e depois tapa o olho bom, dando ao olho enfraquecido a chance de reconquistar o território perdido.
O mesmo raciocínio explica por que o mapa do corpo dentro do cérebro tem aquela forma estranha, com dedos, lábios e regiões de alta sensibilidade ocupando um espaço desproporcional, enquanto o tronco e as coxas ocupam pouco. As áreas que mandam mais informação ganham a maior representação. Não é decreto, é resultado de disputa.

A moeda pela qual os neurônios brigam
Se existe disputa, existe algo em jogo. E aqui entra uma das histórias mais bonitas do livro.
Em 1941, uma jovem italiana chamada Rita Levi-Montalcini fugiu de Turim para uma casinha no campo, onde viveu escondida. Ela era judia, e o país dela tinha se aliado aos nazistas. Escondida, montou um pequeno laboratório dentro da casa e passou dias e noites tentando entender como os membros se desenvolviam em embriões de galinha. Foi ali que ela chegou ao fator de crescimento do nervo, trabalho que lhe rendeu o Nobel em 1986.
O que ela descobriu foi a primeira substância de uma classe de compostos que mantêm os neurônios vivos. São eles a moeda da disputa. Os neurônios que conseguem essas substâncias prosperam. Os que não conseguem esticam seus ramos para outro lugar e tentam de novo. Os que não conseguem em lugar nenhum morrem.
O Eagleman fecha o capítulo com essa imagem: a gente costuma pensar nos oitenta e seis bilhões de neurônios como árvores que convivem em paz, mas talvez eles sejam como uma floresta de verdade, onde cada árvore tenta crescer mais alta ou mais larga que a vizinha porque todas precisam de luz. Sem luz, morrem. Essas substâncias são o sol da floresta de neurônios.
Nem rígido demais, nem solto demais
Tem ainda uma camada acima dessa, e ela é o que dá nome ao capítulo. Existem dois tipos de neurônios: os que estimulam os vizinhos e os que freiam os vizinhos. Os dois tipos estão entrelaçados nas mesmas redes, e a proporção entre eles determina se o sistema inteiro está flexível ou travado.
Se houver freio demais, os neurônios não conseguem competir e a mudança para. Se houver freio de menos, a competição fica tão alta que nenhum vencedor consegue emergir. Um sistema flexível e bem calibrado precisa da dose certa dos dois. É um ponto de equilíbrio entre ser maleável demais e rígido demais, e é nesse ponto que a mudança se torna possível.
Isso também explica por que algumas mudanças no cérebro acontecem rápido demais para serem explicadas por crescimento de fibras novas. Quando alguém fica de olhos vendados, o córtex visual começa a responder ao toque em cerca de uma hora. Não deu tempo de crescer conexão nenhuma nesse intervalo. As conexões já estavam lá, silenciadas pelo freio das conexões dominantes. Quando as dominantes se calam, as silenciosas passam a ser ouvidas. Mudanças maiores e mais duradouras vêm depois, com crescimento real de novas fibras, mas só se a mudança rápida tiver se mostrado útil.
O que isso tem a ver com Yoga
Duas coisas, e as duas mexeram comigo.
A primeira é sobre o que é ficar parado. A gente descreve uma postura sustentada como imobilidade, mas ela nunca é ausência de força. Uma postura que se mantém é um sistema de forças em oposição equilibrada, exatamente como o cérebro do capítulo. Quando você observa alguém firme em uma posição, o que você está vendo não é alguém desligado, é alguém em quem as forças se anularam com precisão. E quando a postura desmonta, quase nunca é porque faltou força, é porque o equilíbrio entre as forças se desfez.
Isso muda a instrução que a gente dá. Em vez de pedir para a pessoa segurar mais, faz mais sentido perguntar onde está sobrando e onde está faltando. É a mesma lógica do freio e do estímulo lá dentro: firmeza demais trava, leveza demais desmonta, e a prática vive no ponto entre as duas.
A segunda é mais dura, e é a lição do olho tampado. Manter território exige atividade. Uma região do corpo que você não usa com atenção não fica esperando por você em silêncio, ela perde espaço para as vizinhas, porque no cérebro não existe terreno neutro. Todo mapa é resultado de uma disputa que continua acontecendo agora, enquanto você lê isso.
A boa notícia é que a disputa continua aberta. O território volta a crescer quando volta a receber sinal, e é exatamente isso que uma prática regular faz. Você não está só se alongando ou se fortalecendo, você está mandando informação para regiões que estavam perdendo espaço por falta de uso.
Se você quer aprender a conduzir uma prática que trabalha o corpo inteiro como instrumento de atenção, entendendo o que está acontecendo por trás de cada instrução, é isso que ensinamos na YogIN® Academy.
No Capítulo 9 eu continuo a releitura, com uma pergunta que todo mundo já se fez: por que fica mais difícil aprender coisas novas com o passar dos anos. Acompanhe o blog para não perder.
