Cérebro em Ação, de David Eagleman (Capítulo 12): o diário escrito no seu cérebro
Chegamos ao último capítulo, e ele é curto, estranho e comovente. O Eagleman fecha o livro com um homem que morreu há cinco mil anos nos Alpes e com uma ideia que reorganiza tudo o que veio antes: você não é alguém que passou por experiências, você é o registro delas. Depois de doze capítulos falando de mapas, competição por território e camadas de memória, o fecho é quase uma declaração sobre identidade.

O homem preso no gelo
Em setembro de 1991, um casal alemão fazia uma caminhada nos Alpes do Tirol e encontrou um corpo. Noventa por cento dele estavam solidamente congelados dentro do gelo da geleira, só a cabeça e os ombros estavam expostos. O homem no gelo estava perfeitamente intacto, congelado e desidratado.
Corpos de alpinistas perdidos já tinham sido encontrados naquelas montanhas outras vezes, mas essa descoberta era diferente. Aquele homem tinha congelado ali cinco mil anos antes.
Ele ficou conhecido como o Homem de Gelo do Tirol e recebeu o nome de Ötzi. Foi retirado da prisão de gelo com picareta ao longo de várias visitas, foi congelado de novo pelo mau tempo e acabou sendo arrancado com bastões de esqui. Depois de semanas de disputa entre jurisdições sobre quem era o dono do achado, os cientistas conseguiram se aproximar e determinar que ele vinha do fim do período Neolítico, mais precisamente da Idade do Cobre.
E aí começaram as perguntas. Quem era esse homem? Como ele era? Por onde andou?
Um corpo é um arquivo
O que impressionou o Eagleman foi o tanto que se pôde extrair de um corpo tão simples.
O conteúdo do intestino revelou as duas últimas refeições dele, carne de camurça e carne de veado, as duas comidas com farelo de trigo, raízes e frutas. O pólen da refeição final estava fresco, o que situa a morte dele na primavera. O cabelo contou o desenho geral da alimentação dos meses anteriores, e as partículas de cobre nos fios sugeriram que ele trabalhava com fundição de metal. A composição do esmalte dos dentes mostrou a região onde ele passou a infância. Os pulmões enegrecidos contaram da fumaça das fogueiras. As proporções dos ossos das pernas revelaram que ele passou a juventude percorrendo grandes distâncias em terreno montanhoso. Ele tinha recebido uma forma primitiva de acupuntura para o desgaste dos joelhos, o que se sabe pelo estado dos ossos e pelas marcas em forma de cruz na pele correspondente. E as unhas registraram o histórico de doenças: três linhas atravessando as unhas indicam que ele sofreu de doença sistêmica em três ocasiões no meio ano antes de morrer.
Dá para juntar uma quantidade enorme de dados a partir de um corpo, escreve ele, porque um corpo é moldado pelas experiências dele.

A ciência que ainda não existe
E é aqui que ele dá o salto. Se o corpo já conta tanto, a moldagem que acontece no cérebro é muito mais específica.
Em algum momento, talvez a gente consiga ler os traços gerais da vida de uma pessoa, o que ela fez e o que era importante para ela, a partir do formato exato dos recursos neurais dela. Se isso for possível, será um tipo novo de ciência. Olhando como o cérebro se moldou, dá para saber a que aquela pessoa foi exposta e, quem sabe, com o que ela se importava. Qual mão ela usava para as tarefas finas? Quais eram os sinais relevantes no ambiente dela? Qual era a estrutura da língua que ela falava? Todas perguntas que intestino, cabelo, joelho e unha não respondem.
A lógica é a mesma com que se faz engenharia reversa de um avião inimigo abatido. Você assume que a função tem relação com a estrutura: se os fios da cabine estão numa configuração específica, existe um motivo por trás disso.
Então ele imagina a cena. Daqui a cinquenta anos, voltamos à urna de vidro em Bolzano, na Itália, tiramos o Homem de Gelo daquela prisão transparente que espelha a geleira dele, e lemos os detalhes da narrativa dele gravados no próprio tecido do cérebro. Entenderíamos a vida dele não de fora, mas do ponto de vista dele. O que importava para ele? Em que ele gastava o tempo? Quem ele amou?
Hoje isso é ficção científica. Em algumas décadas, pode ser ciência. E o parágrafo fecha com a imagem que dá nome a tudo: o Ötzi não teve a sorte de viver numa época em que pudesse apontar uma câmera de vídeo para o mundo dele e capturá-lo. Mas ele não precisava. Ele era a câmera.
Os sete princípios do cérebro que se reconfigura
A última parte do livro é uma síntese, e vale guardar. Depois de todo o percurso, o Eagleman destila a reconfiguração viva em sete princípios. Eu traduzo cada um e coloco entre parênteses onde ele apareceu nesta série.
Refletir o mundo. O cérebro se ajusta ao que entra nele. Envolver o que chega. Ele aproveita qualquer fluxo de informação que apareça, seja ele qual for. Dirigir qualquer maquinário. Ele aprende a controlar o corpo em que se encontra, seja lá qual for esse corpo. Reter o que importa. Ele distribui os recursos com base na relevância. Travar a informação estável. Algumas partes são mais flexíveis que outras, dependendo do tipo de dado que recebem. Competir ou morrer. A plasticidade nasce de uma luta pela sobrevivência entre as partes do sistema. Ir na direção dos dados. O cérebro constrói um modelo interno do mundo e se corrige toda vez que a previsão dá errado.
E ele insiste que isso não é curiosidade da natureza. É o truque fundamental que permite memória, inteligência flexível e civilizações. É se encontrar sem a ferramenta necessária para uma tarefa e ajustar o cérebro para criar essa ferramenta. É o mecanismo que alivia a evolução de uma pressão impossível: em vez de precisar antecipar toda eventualidade, o cérebro ajusta bilhões de parâmetros durante o percurso para dar conta do que não foi previsto.
A briga por território acontece em todos os níveis, da sinapse à região inteira. Cada sinapse, cada neurônio, cada população disputa recursos. E conforme essas guerras de fronteira acontecem, os mapas se deslocam de tal maneira que os objetivos mais importantes para o organismo acabam sempre refletidos na estrutura do cérebro. Essa frase, para mim, é o resumo do livro inteiro.
Chumbo na gasolina e criminalidade
Tem um exemplo social que ele usa para mostrar o alcance disso, e é impressionante.
A criminalidade nos Estados Unidos despencou em meados dos anos 1990. Uma hipótese é que a queda tenha vindo de uma única legislação, a lei do ar limpo, que obrigou os automóveis a trocar a gasolina com chumbo pela gasolina sem chumbo. Com menos chumbo no ar, a criminalidade caiu de forma significativa vinte e três anos depois. Acontece que níveis altos de chumbo no ar prejudicam o desenvolvimento cerebral dos bebês, o que leva a mais comportamento impulsivo e menos pensamento de longo prazo.
Coincidência? Provavelmente não. Países diferentes fizeram a troca em momentos diferentes, e todos viram a taxa de criminalidade cair mais ou menos vinte e três anos depois da mudança, justamente quando as crianças criadas com menos chumbo estavam virando adultos. Se a hipótese estiver certa, aquela lei ambiental pode ter feito mais contra a criminalidade do que qualquer política de segurança da história americana.
A hipótese ainda precisa de mais pesquisa, mas ela mostra uma coisa incômoda: o processo de reconfiguração pode ser influenciado de forma silenciosa por moléculas, hormônios e toxinas. Se você duvidava da importância da plasticidade cerebral, ela vai do indivíduo à sociedade inteira.
Cada um de nós é um gravador de uma época
E aí vem o trecho final, que é o mais bonito do livro.
Por causa da reconfiguração viva, cada um de nós é um recipiente de espaço e tempo. A gente cai num ponto específico do mundo e aspira os detalhes daquele ponto. A gente vira, no fundo, um aparelho de gravação do nosso momento no mundo.
Ele tira daí uma lição de convivência que eu não esperava. Quando você encontra uma pessoa mais velha e fica chocado com as opiniões ou com a visão de mundo dela, tente enxergá-la como um aparelho de gravação da janela de tempo dela e do conjunto de experiências dela. E lembre que um dia o seu cérebro vai ser esse retrato fossilizado no tempo que irrita a próxima geração.
Ele fecha com uma lembrança pessoal. Em 1985 saiu uma música chamada “We Are the World”, com dezenas de músicos famosos, para arrecadar dinheiro para crianças pobres na África. O tema era que cada um de nós divide a responsabilidade pelo bem-estar de todos. Olhando para trás, ele diz que enxerga outra interpretação pela lente de neurocientista.
A gente atravessa a vida achando que existe eu e existe o mundo. Mas quem você é emerge de tudo com que você interagiu: o seu ambiente, todas as suas experiências, seus amigos, seus inimigos, sua cultura, seu sistema de crenças, sua época, tudo. Embora a gente valorize frases como “ele é dono do próprio nariz” ou “ela pensa por si mesma”, não existe maneira de separar você do contexto rico em que você está mergulhado. Suas crenças e seus dogmas e suas aspirações são esculpidos por esse contexto, por dentro e por fora, como uma escultura tirada de um bloco de mármore. Não existe você sem o externo.
Graças à reconfiguração viva, cada um de nós é o mundo.
O que isso tem a ver com Yoga
Este é o último post da série, então eu quero fechar com o que ficou.
A primeira coisa é o Ötzi. Ele é a prova mais literal possível de uma afirmação que a gente faz o tempo todo na nossa área sem ter como sustentar: o corpo guarda a história. Só que aqui não é metáfora nem misticismo. São os ossos das pernas contando as distâncias percorridas, as unhas contando as doenças, os joelhos contando o desgaste e o tratamento que ele recebeu. Se um corpo de cinco mil anos conta tudo isso, o seu corpo hoje está contando a mesma coisa, e o cérebro está contando com muito mais detalhe. O que você repete não é o que você faz, é o que você vira.
A segunda é uma inversão que muda o sentido da palavra prática. A gente costuma pensar em treino como preparação, algo que você faz agora para conseguir alguma coisa depois. O capítulo sugere outra coisa: a prática não prepara você, ela escreve você. Cada hora investida está sendo gravada na estrutura, do mesmo jeito que a fundição de metal ficou registrada no cabelo do Ötzi. Isso muda a pergunta que vale a pena fazer. Não é quanto tempo até eu conseguir, é o que eu estou gravando enquanto faço isso.
A terceira vem dos sete princípios juntos, e vale como resumo de tudo que eu escrevi nesses doze posts. O cérebro reflete o que entra, aproveita o que aparece, aprende a dirigir o corpo que encontra, guarda o que é relevante, trava o que é estável, disputa território sem trégua e persegue os dados. Nenhum desses princípios trata o corpo como uma máquina a ser corrigida. Todos tratam o corpo como um sistema que está sempre negociando o que vale a pena manter. Uma prática que respeita isso oferece informação boa, dá relevância ao que quer que seja mantido, e tem paciência com o tempo das camadas lentas.
A quarta é sobre convivência, e ela é a que eu mais quero deixar registrada. Se cada pessoa é um aparelho de gravação da janela de tempo dela, então a aluna de sessenta e cinco anos que resiste a uma instrução não está sendo difícil, está sendo coerente com tudo que gravou até aqui. E o mesmo vale para você, inclusive quando você acha que está sendo apenas razoável. Ensinar bem é lembrar que a pessoa na sua frente chegou ali por um caminho que você não percorreu.
E a última é a frase que fecha o livro. Não existe você sem o externo. Isso significa que escolher o ambiente é escolher quem você vai virar, e por isso a companhia com quem você pratica, o professor que você escuta, o grupo de que você faz parte, nada disso é detalhe de logística. É matéria-prima da escultura.
Se você quer aprender a ensinar Yoga sabendo o que realmente acontece no cérebro de quem pratica, é exatamente isso que ensinamos na YogIN® Academy.
Aqui termina a série sobre “Cérebro em Ação”. Foram doze capítulos, um por post, e eu recomendo o livro de coração para quem chegou até aqui. Em breve começo a comentar outro livro no blog. Acompanhe para não perder.
