A Mente segundo Daniel Dennett: como entender a consciência sem misticismo

O que é, afinal, a consciência? E por que tantas explicações sobre a mente acabam recorrendo a misticismo, dualismos ou ideias vagas que não resistem a uma análise séria?

Numa live de mais de duas horas, Daniel De Nardi recebeu o Ph.D Gustavo Leal Toledo, professor de universidade federal e pesquisador em Filosofia da Mente, para uma conversa rigorosa sobre o pensamento de Daniel Dennett, um dos filósofos mais influentes do século XX quando o assunto é mente e consciência.

Toledo não é um leitor casual de Dennett. Ele foi aluno de João de Fernandes Teixeira, um dos pioneiros da Filosofia da Mente no Brasil, que estudou diretamente com Dennett e escreveu o livro “A Mente segundo Dennett”. Teixeira dedicou esse livro aos seus alunos, entre eles o próprio Gustavo Leal Toledo, e ao próprio Daniel Dennett, “que leu a última versão”. É essa linhagem que conduz a conversa.

Este texto reorganiza os principais momentos da live em blocos temáticos, para quem quer entender a fundo o que está em jogo. A conversa completa, com todas as digressões e exemplos, está no vídeo ao final.

Por que um professor de Yoga precisa disso

O ponto de partida é direto. Dentro do Yoga, a consciência é um conteúdo central. É comum tratá-la como algo espiritual, e quem quiser acreditar nisso tem todo o direito. Mas se você se propõe a ensinar um Yoga fundamentado na Neurociência, precisa de uma explicação para a mente e para a consciência que tenha base naturalista.

Como Toledo coloca: quando um aluno disser que a consciência é algo divino porque leu isso nas escrituras indianas, o professor precisa saber responder que aquilo pode ser uma visão religiosa legítima, mas que existe também uma explicação científica e filosófica da consciência. Dennett oferece uma dessas explicações. Não a única, e é importante deixar isso claro: a proposta não é trazer “a verdade” sobre a mente, e sim conhecer uma das visões mais sólidas disponíveis.

Vale a distinção que aparece logo no início: a ciência tende a funcionar pelo peso da evidência, onde a hipótese mais bem sustentada vence. A filosofia é diferente. Você analisa os pontos de vista concorrentes e decide qual faz mais sentido. Um bom filósofo, diz Toledo, é aquele de quem todo mundo discorda, mas que ninguém consegue ignorar. Dennett é exatamente isso.

O filósofo que trouxe a biologia para dentro da mente

Dennett estudou em Harvard e em Oxford e inaugurou uma forma de fazer filosofia que não cabe nas duas tradições clássicas. De um lado existe a filosofia analítica, anglo-saxã, voltada para lógica, linguagem e ciência. De outro, a continental, europeia, mais próxima da literatura. Dennett ajudou a abrir uma terceira via, ainda sem nome consagrado: uma filosofia que faz questão de ser empiricamente bem informada, que lê os biólogos e os cientistas e pensa a partir deles.

A virada de chave dele foi quase autobiográfica. Tudo começou com uma pergunta aparentemente boba: por que o braço dorme quando a gente dorme em cima dele? Os colegas filósofos acharam a questão menor. Dennett decidiu então andar com a turma da medicina e da biologia, depois com a da inteligência artificial. Encheu de biologia uma discussão que estava presa em abstrações, muito por influência da sua proximidade com o biólogo Richard Dawkins.

Os quatro tipos de mente

Os quatro tipos de mente de Dennett: do comportamento fixo da bactéria até o ser humano que usa ferramentas culturais.
Os quatro tipos de mente de Dennett: do comportamento fixo da bactéria até o ser humano que usa ferramentas culturais.

No livro “Tipos de Mente”, Dennett propõe uma espécie de degradê de complexidade mental, pensado em termos evolutivos. São quatro tipos de criaturas:

As ferramentas da mente: como o zero nos deixou mais inteligentes

As ferramentas da mente: linguagem, escrita e símbolos como o zero estendem o pensamento para fora do cérebro.
As ferramentas da mente: linguagem, escrita e símbolos como o zero estendem o pensamento para fora do cérebro.

O salto gregoriano é o que mais separa o humano dos outros animais. O exemplo mais óbvio é a linguagem: não a usamos só para falar com o outro, mas para pensar. Mas o caso mais impressionante é o do número zero.

Antes dos algarismos arábicos chegarem à Europa, a matemática usava algarismos romanos, sem o zero e sem a base decimal. Fazer uma simples divisão era tão difícil que chegava a ser tema de doutorado. O zero, inventado na Índia e trazido pelos árabes, mudou tudo. Hoje uma criança de doze anos faz de cabeça divisões que um grande estudioso do século XIII não conseguia fazer. A diferença não está no cérebro. Está na ferramenta.

Essa ideia se apoia em um conceito de Dawkins, o fenótipo estendido. Assim como a teia da aranha, a represa do castor ou o ninho do passarinho são extensões do organismo no mundo, a mente também se estende para fora do crânio: o livro que você sublinha, os papéis espalhados na mesa, as anotações que organizam o raciocínio. Para Toledo, a forma como ele dispõe os livros abertos na mesa e organiza a própria biblioteca é literalmente uma expressão externa de como o pensamento está organizado por dentro.

A postura intencional: três formas de explicar um comportamento

Uma das contribuições que o próprio Dennett considerava mais importantes é a ideia de postura intencional. Para prever o comportamento de algo no mundo, temos três estratégias:

A sacada de Dennett, contra o filósofo John Searle, é que a intencionalidade não é uma coisa que está dentro da nossa cabeça. Ela é o modo como explicamos e prevemos o comportamento dos outros. E é uma ferramenta tão eficiente que aplicamos a mesma lógica a pessoas, cães, golfinhos e até a robôs. Se conseguimos prever o comportamento de um robô usando a postura intencional, estamos usando exatamente a mesma ferramenta que usamos com os seres humanos.

O problema da consciência: a qualia

Aqui o tema fica mais espinhoso. Na Filosofia da Mente, “consciência” tem um sentido mais estreito do que o uso cotidiano. Está ligada ao conceito de qualia: os aspectos qualitativos e subjetivos da experiência, aquilo que não conseguimos traduzir em palavras.

Se eu martelo o meu dedo e você martela o seu, temos comportamentos parecidos de dor. Mas é impossível saber se sentimos a mesma dor, ou na mesma intensidade. O mesmo vale para cores e sabores. Tente explicar para alguém o que é ver a cor verde, ou como saber se o verde que você vê é o mesmo que o outro vê. Você só tem acesso à sua própria experiência.

Isso é um problema sério para a ciência, que trabalha com fenômenos de terceira pessoa, objetivos e verificáveis por todos. Se abrirmos o cérebro de alguém que come chocolate, vemos neurônios trocando sinais, não o gosto do chocolate. O grande desafio da Filosofia da Mente é justamente encaixar a consciência numa visão fisicalista do mundo.

O modelo dos múltiplos rascunhos e o fim do teatro cartesiano

No modelo dos múltiplos rascunhos, o cérebro processa várias narrativas ao mesmo tempo. Não existe um palco central nem um observador interno.
No modelo dos múltiplos rascunhos, o cérebro processa várias narrativas ao mesmo tempo. Não existe um palco central nem um observador interno.

A resposta de Dennett veio em 1991, no livro “Consciência Explicada”, e é radicalmente inovadora. É o modelo dos múltiplos rascunhos. O cérebro está o tempo todo construindo várias narrativas paralelas a partir das informações dos sentidos. Esses rascunhos competem entre si por atenção e pelo controle do comportamento.

O detalhe que vira tudo de cabeça para baixo: não existe uma resposta “verdadeira” sobre o que está acontecendo na sua cabeça. Todos os rascunhos estão acontecendo. A pergunta que alguém faz é que traz um deles para a frente. Imagine que você está lendo um livro enquanto um sino toca ao longe. Num momento, você diria que está lendo. Quando o sino para, você percebe que estava ouvindo o sino. Estava fazendo o quê, afinal? As duas coisas.

Com isso, Dennett desmonta o que ele chamou de “teatro cartesiano”: a ideia de que existe um palco interno onde tudo se junta para ser observado por um “eu”. Não há palco, não há holofote, não há plateia. O cérebro é um pandemônio, várias coisas acontecendo ao mesmo tempo, nenhuma mais ou menos consciente que a outra. Isso resolve de forma elegante o chamado problema da unificação: os neurocientistas procuravam o lugar do cérebro onde a cor, a forma e o movimento se uniriam para formar a experiência. Para Dennett, esse lugar não existe.

O “eu” como centro de gravidade narrativo

É aqui que entram os memes, no sentido original do termo. O conceito foi criado por Dawkins em “O Gene Egoísta”, de 1976, muito antes da internet. Memes são unidades de cultura, passadas de pessoa a pessoa por imitação, que competem entre si pela nossa atenção, como o hit de Carnaval que vence os concorrentes a cada ano e se espalha como uma epidemia.

Dawkins criou o conceito quase de passagem. Foi Dennett quem o levou a sério como ferramenta da mente e propôs uma memética. E ele dá um passo provocador: o próprio “eu” é um conjunto de memes, um memeplexo. Não é uma coisa biológica que podemos abrir o cérebro e apontar. É o modo como organizamos o nosso repertório e narramos a nossa existência, algo que ele chama de centro de gravidade narrativo.

Toledo dá um exemplo pessoal. Ao escrever o memorial da própria carreira, percebeu que poderia ter escrito várias trajetórias diferentes, todas verdadeiras, todas da mesma vida. A gente escolhe uma narração e passa a acreditar que ela é o que somos. Curiosamente, é um ponto de contato com a leitura oriental do eu como construção, não como essência fixa.

Heterofenomenologia: por que o seu relato não basta

Como, então, estudar a consciência sem cair no misticismo? Dennett propõe um método que chamou de heterofenomenologia. A ideia é não dar prioridade absoluta ao relato em primeira pessoa. O relato é válido e não precisa ser descartado, mas tem que ser cruzado com o comportamento da pessoa e com exames de imagem do cérebro.

Quando essas fontes se contradizem, não basta dizer que o relato é o verdadeiro. Um exemplo poderoso é o do ponto cego e da visão periférica. Você tem a impressão de enxergar todo o campo visual nítido e colorido. Não é verdade. Só uma região central minúscula, do tamanho da unha do polegar com o braço esticado, é vista com cor e definição reais. A periferia praticamente não tem cor. Dá para testar isso em casa, com uma carta de baralho deslizando do canto do olho até o centro: você só descobre a cor quando ela chega quase ao centro da visão.

O recado é direto: mesmo que o seu relato diga que toda a sua visão é colorida, um experimento simples mostra que não é. O relato é apenas uma das fontes. Isso conecta de volta ao Yoga. Quando se afirma que “o Yoga é a ciência da consciência”, costuma-se dar prioridade total ao relato dos praticantes sobre seus estados meditativos. Dennett não jogaria fora esse relato. Ele somaria a ele o comportamento e o imageamento cerebral.

Livre-arbítrio: a versão que sobrevive à biologia

Dennett também desinfla o conceito de livre-arbítrio. Existe a versão libertária, absoluta: a capacidade de decidir livre de qualquer condicionante biológico ou físico. Sobre essa, Dennett concorda com quem a nega, como o neurocientista Robert Sapolsky: ela não existe e nunca existiu, porque negá-la seria negar a biologia e a física.

Mas há um livre-arbítrio que vale a pena discutir, porque é o único possível. É a capacidade de absorver informações, ponderar sobre elas, buscar o que falta e tomar uma decisão a partir disso. Toledo compara com o conceito jurídico de sanidade: o réu é são quando tem consciência de que sua ação é errada e toma medidas para escondê-la. A responsabilidade, nesse sentido, não é tudo ou nada. É uma gradação. Há quem tenha mais, quem tenha menos, e até o contexto muda os graus de liberdade. Um estudo célebre sobre julgamentos de liberdade condicional mostrou que juízes tendem a ser mais rígidos perto do horário do almoço, quando estão com fome. A liberdade que dá para ter é essa, dentro das condições reais.

Ceticismo diante da “iluminação”

Numa das perguntas finais, Toledo, que se declara ateu, aplica o mesmo critério a quem se diz iluminado ou espiritualmente superior, seja Yogananda, Osho, um líder religioso qualquer ou uma autoridade eclesiástica. Dizer que se é iluminado, por si só, não significa nada. Qualquer um pode dizer.

O método é o mesmo de Dennett: comparar o que a pessoa fala de si com o comportamento dela e com o que se pode observar. A biografia de muitos grandes mestres não confirma a espiritualidade elevada que eles próprios anunciam. Mas, e este é um ponto importante, isso não nega que décadas de dedicação a certos exercícios produzam capacidades reais que quem nunca praticou não tem. O relato em primeira pessoa tem valor. Só não pode ser a única fonte.

Discordar é uma forma de respeito

A conversa termina com uma reflexão que vai além de Dennett. Toledo fez parte da formação acadêmica estudando com David Chalmers, um adversário teórico direto, com quem discorda desde o mestrado e com quem manteve diálogo cordial por anos. Na filosofia, lembra ele, ninguém concorda com ninguém. Discordar não é desrespeitar. Pelo contrário: responder a sério ao argumento de alguém é a maior demonstração de respeito intelectual.

O lamento dele é atual. Cada vez mais as pessoas confundem respeitar alguém com concordar com a pessoa, e a política contamina debates que não têm nada a ver com ela. Manter a capacidade de discordar com rigor e sem rancor é parte do que significa pensar bem.

O que isso muda para o Yoga com Neurociência

Levar a sério o que a ciência e a filosofia dizem sobre a mente é o que diferencia a abordagem de Yoga com Neurociência de explicações simplistas. O professor que entende a consciência como Dennett a descreve não promete iluminação nem trata a mente como um mistério intocável. Ele consegue acolher a visão do aluno e, ao mesmo tempo, oferecer uma base sólida. É a aplicação direta do princípio da YogIN® Academy: o Yoga propõe, a ciência valida e corrige.

Assista à conversa completa

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